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Lunes 08 de Febrero de 2010

Tem sido tentador nos últimos dias usar a crise de 1929 como referência para o atual cenário. O senhor gosta desses paralelos?

(OGlobo - 28/09/2008 05:00:13)

NIKOLAUS WOLF: Não é uma comparação simples, pois há poucas coisas em comum entre as duas crises em termos de causas, além dos EUA como epicentro. A atual, por exemplo, é uma crise no mercado financeiro causada por uma política monetária por demais flexível combinada a um sistema regulatório fraco, ao contrário do que era a economia americana há quase 80 anos. O crash de Wall Street costuma ser supervalorizado nesse contexto, pois foi um estágio de um processo mais amplo e que ultrapassou as fronteiras americanas. Daí a minha preocupação com a reação do governo americano, em especial esse pacote de ajuda às instituições financeiras, parece-me imediatista demais.

Uma das ondas de choque atingiu uma Europa ainda em recuperação dos efeitos da Primeira Guerra Mundial, e a Alemanha com mais força. Onde poderemos ter reverberações dessa vez?

WOLF: A crise da economia alemã e todo o cenário de desolação que acabaria sendo explorada pelo nazismo são uma lição importantíssima que os governos, sobretudo o americano, deveriam estar levando em conta. Não por medo de alguma nova ascensão do extremismo político em particular, mas pelos efeitos potenciais de suas decisões. A Ásia, por exemplo, poderá ter sérios problemas porque há alto risco de uma crise na China, cujo crescimento econômico dos últimos anos foi alimentado pelos gastos dos EUA, que certamente será freado.

Há muita gente criticando a intervenção dos EUA, mas qual seria a outra opção para evitar o pânico generalizado nos mercados?

WOLF: No caso do pacote de socorro, por exemplo, é claro que Washington precisava agir rápido. Porém pagar a fiança de bancos e instituições pode atrapalhar mais do que ajudar, pois deixa sementes para novos problemas. É um pouco diferente no caso da AIG, que se encaixa naquela categoria de ''grande demais para quebrar''. Nacionalizar as instituições envolvidas e repassar os prejuízos para o consumidor simplesmente legitima o comportamento irresponsável no mercado. Minha primeira sugestão seria que em vez de assumir totalmente prejuízos, o governo americano fizesse algum tipo de empréstimo que permitisse um mínimo de liqüidez para as empresas. A segunda seria criar mecanismos que reprimissem os riscos exagerados que detonaram o problema no setor imobiliário dos EUA.

Uma intervenção governamental não inibiria ainda mais os mercados?

WOLF: Uma coisa é o governo se sentir no direito de conduzir a economia, outra é instituir algum tipo de fiscalização que iniba a falta de transparência na avaliação de riscos que também foi um dos fatores determinantes para a atual crise. Seria parecido com a área de atuação das agências anti-truste que funcionam em vários países. Um instrumento para repelir abusos.

Como podemos imaginar o futuro dos mercados?

WOLF: Parece óbvio que Nova York sairá bastante enfraquecida como centro financeiro mundial e verá a ascensão de seus principais competidores. A Europa tende a se fortalecer, mas há uma tradição de maior presença governamental na economia no continente, o que tornaria difícil alguma mudança mais radical a curto prazo. E não está errado quem se arrisca a dizer que o poderio econômico dos EUA será reduzido nos próximos anos. Uma das lições de 29 é que esse tipo de crise demora para passar, basta notar que, mesmo depois do New Deal de 1937, a economia americana também teve problemas para se recuperar.

Quais os efeitos da crise para as pessoas comuns?

WOLF: Ficou mais difícil conseguir crédito e a diminuição na quantidade de dinheiro gasto vai afetar desde o grande banqueiro ao taxista que o transporta. Pensemos, por exemplo, no caso de um dono de cafeteria nas imediações da sede britânica do Lehman Brothers. Em um dia, sua clientela em potencial caiu em 4 mil pessoas, com impacto no seu lucro.

ROUBINI: CRESCIMENTO DO BRASIL CAI A 2%, na página 38

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